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As birras da mãe

Venturas e desventuras de uma tripeira que rumou a sul. As histórias da filha, da mulher e da mãe.

Quantos são?(dia da mãe solteira)

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Não sei bem que idade tinha, mas ainda brincava com nenucos e nesse dia um deles acompanhava-me.

A mim e à minha mãe.

Era dia da mãe e, como quase todos os domingos, saímos para almoçar. 

Naquela altura não se usava marcar mesa e estava tudo à pinha.

Recordo-me de entrarmos e sairmos de alguns sítios - estaciona, sai do carro, entra no restaurante cheio de gente sentada e em pé, sai, entra no carro e continua a procura. 

Havia um restaurante novo, que ainda não conhecíamos, cuja especialidade era leitão. Como era mais afastado e porque aparentemente não íamos arranjar pouso em mais lado nenhum das redondezas, lá fomos tentar a nossa sorte.

Havia uma fila interminável de gente mas dado o avançado da hora, a minha mãe decidiu ficar. Foi avisada para dar o nome e número de pessoas no início da fila. Fiquei a brincar com outros miúdos cá fora numa espécie de parque improvisado (na atura não se pensava muito em raptos ou desaparecimentos, ainda não tinha acontecido a tragédia do Rui Pedro...)

Como éramos apenas duas, rapidamente fomos chamadas.

A história começa aqui:

"Deve haver um erro. Aqui diz duas pessoas..."

"Somos nós as duas"

"Então, mesa para três. O marido vem cá ter depois, é isso?"

"Não vem mais ninguém, somos nós as duas-"

"Só a senhora e a menina?"

"Sim, eu e a minha filha! (já em brasa e como todo um restaurante de olhos postos naquela cena triste)"

"Errrrr, é que eu tenho aqui mesa para dois... tenho de ver..."

"Olhe (visivelmente irritada) se calhar é melhor chamar o gerente..."

"Sou eu..."

"Então, esclareça-me o problema de me sentar a mim e à minha filha numa mesa."

"Nã.... Não há problema nenhum. Siga-me"

Fomos. Sentou-nos numa mesa pequena que ainda estava por levantar onde, pelo número de pratos, tinham comido três pessoas.

Depois de um leva pratos, copos, trás toalha nova e ementa, chegam os pratos à mesa. Três. Mais copos em igual número e guardanapos (naquele sítio eram de pano)...

A minha mãe nada disse. Pediu uma cadeira para bebé e quando esta chegou (eram daquelas de madeira que encaixavam nas cadeiras e serviam apenas como altura)  sentou lá o meu nenuco.

Eu achei um piadão que o meu bebé tivesse direito a banco, varrendo do meu pensamento qualquer constrangimento ocorrido na entrada do restaurante. Ela, levou com uns olhares divertidos e não teve mais vez nenhuma de voltar ao assunto do "quantos são?". O resto da refeição decorreu sem mais "incidentes". 

Ficamos fãs daquele leitão, tão bom ou melhor que o da Mealhada a um terço dos quilómetros. Voltamos muitas vezes. Só deixamos de ter direito a três lugares à mesa, quando larguei os bonecos.

Ser mãe é muito mais que carregar na barriga. É muito mais que parir!

Imagino que, com aquela cegada toda, a minha mãe tenha perdido a fome, tenha tido vontade de mandar tudo à fava  e ir embora. Mas não estava sozinha. Por mim, com a resiliência que só a maternidade trás, num rasgo de iluminação pautada pelo humor, resolveu a questão sem permitir que me melindrassem mais, desanuviando o ambiente pesado que se estava a criar e que toda a gente entrasse na "brincadeira de pôr o empregado de mesa a servir um nenuco".

Ser mãe é ter esta capacidade de colocar outro ser à nossa frente, sem ressentimentos ou queixumes. É recriar o mundo, uma e outra vez, para que os nossos filhos o encontrem melhor.

Estávamos nos anos oitenta e, felizmente, já muita coisa mudou desde então. Noutras matérias, nesta não.

Há dias fui contactada por uma jornalista da Visão sobre este assunto. Encontrou-me por causa do meu desabafo acerca destes dias comemorativos (na altura sobre o do dia do pai)... Disse-me que uma amiga e sua filha  nos dias de hoje, estavam a passar por vivências semelhantes às minhas de da minha mãe... Mais de trinta anos depois... Queria escrever sobre isso. Falamos e deu-me conta de outras histórias assim... De escolas que ainda obrigam os alunos a fazer trabalhos / presentes para pessoas ausentes... "Podem dar a outra pessoa que queiram" é a resposta que se dá a quem mostre resistência em participar nesta atividade... Como se fosse a "mesma" coisa... Como se isso não magoasse ainda mais quem faz e quem recebe... Funciona como lembrete, como dedo da ferida pessoas! Será que é tão difícil perceber isso?!

A maior parte do tempo nem sequer pensamos sobre o assunto, porque a nossa realidade é outra e somos, pasmem-se, felizes nela! É natural para nós. Mas depois vem a sociedade, seja através da festa do dia do pai, da mãe ou do periquito, seja porque no dia da mãe não pode vir almoçar só a mãe com a filha... E recomeça tudo outra vez!

Bem... vai longa a birra. Espero que tenham tido um dia feliz! Hoje e todos os dias. Especialmente, nos que pedem mesa para dois ;)

Nota -Já tinha saudades de vos escrever. E que bem que me soube! Obrigada por continuarem aí :)

 

 

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