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As birras da mãe

Venturas e desventuras de uma tripeira que rumou a sul. As histórias da filha, da mulher e da mãe.

Obrigada pai!

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A escrita sempre foi para mim terapêutica, quase como uma forma de exorcizar os meus demónios, as minhas angústias, mas também expressar as minhas alegrias e conquistas (para que não pensem que é sempre tudo mau :P).

Recentemente, no decurso de um conjunto de atividades e tarefas que me fizeram mergulhar em mim (tenho-me dedicado à área do desenvolvimento pessoal no sentido de me descobrir), foi-me pedido que escrevesse uma carta de agradecimento à pessoa que mais me feriu, àquela pessoa que mais me magoou e que "não quero, em circunstância nenhuma, ver nem pintada".

Li o desafio, reli-o e tornei a ler mas continuava a achar que havia alguma coisa de errado - "como assim carta de agradecimento à pessoa que mais nos magoou?"

Como hoje é o Dia Internacional do Obrigado  e porque acredito cada vez mais na importância de sermos gratos por tudo aquilo que nos rodeia, mesmo o menos bom, partilho convosco a carta que redigi ao meu pai. Para os mais desatentos ou para aqueles que chegaram há pouco a este meu cantinho na blogosfera, o meu pai (se é que assim se pode chamar) alienou-se do seu papel quando eu tinha cerca de 6 meses de idade. Depois de se ter separado da minha mãe (que na altura estava desempregada), nunca mais me procurou, nunca mais esteve presente em qualquer momento da minha vida, bom ou mau, nunca participou monetariamente com nada. Em 19 anos (ele morreu quando eu tinha essa idade), nunca senti necessidade de lhe escrever (apesar de nessa altura já escrevinhar algumas coisitas) mas se o tivesse feito calculo que não fosse propriamente para escrever uma carta de agradecimento. Volvidos tantos anos, a morte posterior da minha mãe, ter-me tornado eu própria mãe, quando penso na pessoa que mais me magoou, continua a ser ele o meu alvo...E mesmo assim, procurando no mais intimo do meu ser, consegui escrever-lhe uma carta de agradecimento (se isto não é transformador, não sei que diabo o será):

"Cândido,

Venho agradecer-te por me teres dado a melhor mãe que poderia ter tido, sem ela duvido que me tivesse tornado quem sou hoje mas acredito piamente que sem a tua carga genética (há quem diga que me pareço contigo) também não.

Apesar de te teres alienado permitiste que o resto da tua família que conhecesse e convivesse comigo, talvez não nos moldes das famílias mais tradicionais mas ainda assim devo agradecer-te por isso. Deste-me irmãos, quatro, tios e avós.

O teu pai, foi o único dos meus quatro avós a  ver-me na bênção da mãos (cerimónia de final de curso de enfermagem) e quanto orgulho eu e a minha mãe tivemos que ele lá fosse participar, assistir e rejubilar pela formação da neta (penso que teria 94 anos na altura e foi a conduzir para lá - lembro-me dos meus colegas de curso comentarem o quão lúcido e fisicamente bem estava o meu avô para a idade que tinha). Obrigada por isso.

Quero ainda agradecer pela tua ausência, pois sem ela seguramente não me tinha tornado nesta pessoa tão peculiar e desprendida. Não seria a mesma caso não tivesse sido criada por uma mãe solteira na década de 80 com tudo o que isso acarreta ou caso não tivesse enfrentado tantos dias do pai ou festas de Natal sem a tua presença.

Obrigada por teres dado espaço para isto e por permitires que a minha mãe tivesse despertado nela aquela força que me guiou até ao fim dos seus dias.

Se sou como sou, apesar da tua alienação, também a ti o devo, por isso aceita esta carta de agradecimento.

Inês"

Este exercício tão simples mas ao mesmo tempo tão complexo, foi regenerador. Quase como se tivesse uma gaveta muito desarrumada e a Marie Kondo cá tivesse vindo fazer a sua magia. Deitei fora o superficial e os artefactos que só fazem ruído e mantive-me com o essencial. 

Quando percecionamos as coisas à distância (que este exercício demanda), mantemos-nos fieis ao que verdadeiramente importa e somos superiores a ressentimentos ou rancores porque compreendemos que isso não nos acrescenta nada, só nos retira.

Desafio-vos a fazerem o mesmo exercício. Mergulhem em vós e encontrem no vosso âmago razões para agradecer a quem mais vos magoou nesta vida. Depois coloquem isso por palavras, por mais frias que vos pareçam, ponham por escrito esses agradecimento. O final, prometo-vos, é transformador!

Muito obrigada por estarem desse lado <3

(se quiserem partilhar comigo o resultado final, terei todo o gosto)

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