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As birras da mãe

Venturas e desventuras de uma tripeira que rumou a sul. As histórias da filha, da mulher e da mãe.

O rastilho

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Nos últimos dias temos assistido a um triste espetáculo.

Terá começado na manhã de domingo, num bairro semi-acabado do Seixal, onde de um lado está a polícia de segurança pública e do outro cidadãos. Uns afirmam ter exercido força para controlar uma situação complicada, outros dizem terem sido agredidos brutalmente. Há imagens que corroboram uma das versões, mas que não demonstra tudo. Não mostra como terão começado os desacatos, a tal briga entre mulheres, a tal festa que durou até de manhã.

Não temos conhecimento de todos os factos, não estávamos lá, não há filmes de todo o processo e, se calhar, nem interessa que haja, mas depressa nos pomos a julgar o que aconteceu com base nas nossas crenças ou estereótipos ou preconceitos, you name it. E isso é muitíssimo perigoso. 

De um lado está uma força armada, que visa proteger os cidadãos e que, pelo menos em teoria, apenas se utiliza da força em último caso e até estar controlada a situação. E de outro estão pessoas, familiares umas das outras, agredidas fisicamente até ficarem no chão - confesso que fico sempre um pouco impressionada com as imagens das forças policiais  a investirem sobre quem já está no chão, sobretudo se se tratarem de mulheres, mas como acima disse, desconheço o que motivou tal atuação.

O que está aqui a toldar a visão do caso, qualquer que seja o lado da barricada com que se simpatize mais, queiramos ou não, é o facto de isto se ter passado num bairro social e com pessoas, aparentemente desfavorecidas (quaisquer que seja o motivo desse desfavorecimento). Da outra vez em que filmaram um agente a pontapear um homem já no chão, foi após um jogo de futebol, se bem se lembram,  houve logo quem dissesse que "quem vai para essas coisas sujeita-se", como se alguém se sujeitasse a levar pancada, já esborrachado no chão sob o olhar atento do próprio filho...

Vão haver sempre casos de abuso da força ou em que esta tem mesmo que ser utilizada para prevenir males maiores... O que importa aqui é aferir exactamente o que se terá passado por forma a por um ponto final no assunto e não deixar escalar mais isto, para ver se Lisboa não vira o Texas, se é que me faço entender...

Convido-vos a que façamos uma "simples" reflexão: seria o nosso julgamento tão rápido e inequívoco se isto se tivesse passado na Lapa ou na Foz? Com brancos? (há que chamar os bois pelos nomes, não há volta a dar lamento!) E por outro lado, por se tratarem de africanos, tem a PSP de ter dois pesos e duas medidas só para não parecerem racistas?! Deve a polícia de segurança pública escusar-se dos seus deveres para não ferir suscetibilidades e acender o rastilho?! É que hoje em dia tem de se lidar com algumas questões com pinças para que não hajam repercussões catastróficas. Parece que sempre que há alguma situação com as chamadas minorias, parte-se logo do princípio que se trata de uma ato xenofobo ou chauvinista. Por outro lado, sempre que aparece uma ovelha tresmalhada, todo o rebanho fica rotulado? Em suma, caso a PSP  tenha tido uma intervenção exemplar, não devemos partir do princípio que todos os moradores daquele bairro mereçam ser encarcerados e enviados "para a terra deles" conforme tenho lido nas redes, bem como caso aqueles elementos tenham tido comportamentos desadequados, não se deve estender a toda a classe...

Uma forma muito simples de se olhar para a história e se perceber do que estou a falar é olhar para a absolvição do jogador norte-americano que deu origem a uma série, que nem a propósito, ando a ver - Caso O.J.Simpson .

Assim de forma muito sucinta, o homem matou a ex-mulher (a quem já agredia violentamente com frequência) e o seu namorado, de forma grotesca. Haviam provas de ADN e gravações da chamada que a mesma fez para a linha de emergência naquele dia em que se ouviam as agressões, que o condenariam a prisão perpétua ou até mesmo à pena de morte mas que, como era negro e a polícia de Los Angeles era conhecida por ser racista, se safou de todas as acusações porque a defesa manobrou a lei de forma a que o caso parecesse com uma perseguição racista, tendo colocado em causa a veracidade das provas. O tipo foi absolvido, imaginem porque se misturou o caso com questões raciais... Muito anos depois, se demonstrou não ser o menino do coro que venderam e esteve preso por agressões várias, assaltos à mão armada, chegando mesmo a confessar dos homicídios de que tinha sido ilibado.

Ou seja, devemos ver todos os cenários à luz da igualdade... Não importa que tenha sido no Bairro da Jamaica ou no Príncipe Real, se eram de origem Africana ou Nórdicos, se eram altos ou baixos. O que importa é se agiram correctamente, ou não, de parte a parte. Não vale andarem aqui a bater no ceguinho que somos todos racistas para depois irem incendiar meio mundo. Ou por outro lado, não esperem ter tratamento VIP só para que as forças armadas não podem conter fisicamente um grupo sob pena de parecerem xenófobas. Todos sabemos que há bons e maus profissionais, assim como boas e más pessoas, em TODO o lado. Ponham os filtros sociais de lado e enxerguem as coisas como elas são, e não como querem que as vejamos - seja por imagens captadas por telemóveis ou reportagens encomendadas.

De facto, ao longo dos tempos têm-se cometido inúmeras injustiças para com quem não se encaixa no perfil socialmente estabelecido, mas isso não deve ser utilizado como arma de arremesso sempre que dá nos dá jeito.

Apurem-se os factos e acalmem-se os ânimos, nem tudo o que parece é e se for que se trate implacavelmente para que não se repita no futuro.

Se puderem, vejam a série ou leiam sobre o julgamento do OJ Simpson. Compreenderão que estes casos são de uma complexidade monstruosa e que por vezes, como base na História da humanidade, se cometem as maiores injustiças para que não pareça racismo ou xenofobia. 

 

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